Gosto pouco de transcrever, mas confesso que este texto me inquietou:

«Nota de abertura à Palestra realizada pelo Dr. Laborinho Lúcio, sobre o tema “Educar também é dizer não!”

 Nota de abertura à Palestra realizada pelo Dr. Laborinho Lúcio, sobre o tema “Educar também é dizer não!”, organizada pela Tangerina, realizada na Fundação Eng. António de Almeida, no dia 25 de Outubro de 2010. Por Manuel Rangel

São francamente difíceis estes tempos em que nos é confiada a educação de crianças que irão viver o apogeu das suas vidas por volta do ano 2050. É um pouco assustador quando pensamos nestes termos!
Com as mudanças tão brutais dos últimos tempos, não temos qualquer hipótese de imaginar o que será e como será esse mundo em que irão viver. Resta-nos, então, debruçarmo-nos sobre o mundo em que vivem (e vivemos) hoje!

Acredito, de resto, que uma educação pensada, reflectida e verdadeira – aquilo a que chamaria uma educação sólida! – em qualquer época, é o sustentáculo bastante para a vida, seja qual for o tempo em que ela se vá viver! Mas não me quero adiantar, nem apressar a concluir!

Gostaria, antes, de começar por colocar algumas questões – aquelas que se nos colocam diariamente, que a toda a hora nos sobressaltam.

Por profissão uns, por inerência da sua paternidade, outros, somos todos chamados a educar num mundo muito diferente já daquele em que fomos educados e em que vivemos grande parte das nossas vidas.

O que mudou, então?

As crianças actuais vivem:

–  em famílias muito mais pequenas, muito menos numerosas – passou-se em poucos anos, em Portugal,  de uma média de 4 / 5 crianças por família (de filhos por casal) para qualquer coisa como 1,4 / 1,5 nos dias de hoje;
– mas vivem também em núcleos familiares muito mais restritos – a ideia de família alargada é já rara; a proximidade e presença, outrora frequente, de avós, tios, primos começa a ser hoje uma raridade; aliás, tirando casos excepcionais, as crianças de hoje são também já netas de avós ambos com uma vida profissional fora de casa;
– vivem, também, em famílias cada vez mais diferentes, menos uniformes – famílias monoparentais, famílias de pais separados, famílias com um dos elementos ausentes por períodos prolongados; crianças com mais do que uma casa-núcleo de família;
– famílias e pais cada vez mais sobre ocupados – com horários prolongados, com múltiplos empregos, com vida social intensa;
– crianças que, por necessidade de organização familiar, passam cada vez mais horas da sua vida na escola ou noutras instituições;
– crianças entregues, em casa, também cada vez mais horas à Televisão – essa grande “ama universal”, como lhe chamou Liliane Lurçat, há mais de 20 anos; hoje prolongada por consolas, computadores e pela Internet;
– crianças que vivem em espaços, frequentemente, até, de melhor qualidade, mas fisicamente cada vez mais limitados – as casas são escandalosamente caras e por isso também escandalosamente exíguas; os jardins, os pátios, os parques, as ruas, as cidades em que vivem cada vez mais perigosos;
– crianças e famílias fortissimamente pressionadas por uma sociedade de consumo completamente desenfreada que, percebendo, nos últimos anos, a força e o poder das crianças no seio das famílias, para elas direccionou todas as suas baterias.

E é por tudo isso que temos hoje, nas escolas, crianças ultra-desenvolvidas intelectualmente, hiper-estimuladas, com quantidades absolutamente fascinantes de informação, mas que, com frequência, aos 6/7 anos não sobem uma escada alternando os pés. Crianças que nos falam de dinossauros, anquilossauros, tiranossauros, que falam do Big-bang, de galáxias, dos aneis de Saturno, e no meio procuram a chupeta, a fraldinha ou o boneco de estimação.

Temos hoje crianças nas escolas que, para nossa inveja, aos 5/6 anos mexem, com todo o à-vontade, em comandos, em DVD’s, manipulam com excepcional destreza telemóveis, consolas e computadores, mas continuam a tomar biberão, não sabem apertar sapatos, não vestem um casaco ou despem uma camisa, não descascam uma peça de fruta, não conseguem separar na boca os caroços das cerejas… já para não falar, em separar as espinhas do peixe ou os ossos do frango…

Em artigo que publiquei, há uns tempos atrás, chamei-lhes a geração “Chicco” (passe a publicidade). Uma geração que queremos infalivelmente segura… a quem tentamos tirar todos os perigos e obstáculos da frente. Vasculhamos e preparamos tudo à sua volta para que não contactem com pregos, parafusos, farpas, ferrugem, objectos ponteagudos. Tratamos da sua alimentação para que não tenha couves, ossos, caroços, espinhas e, até, côdea no pão. Queremos, para eles, um mundo de plástico – totalmente polido, burilado, arredondado, almofadado! Um mundo sem quaisquer perigos nem sobressaltos!

Como se tal fosse possível!!!…

Pretendemos dar-lhes “rosas sem espinhos”, quando sabemos que esse não será o mundo em que viverão. Concluía, então, que procuramos hoje tirar-lhes todos os engulhos do caminho, esquecendo-nos que isso não durará para sempre! E quando chegar o momento em que temos de lhes pedir esforços e em que queremos que enfrentem, com coragem e eficácia, as dificuldades e obstáculos, verificamos, com grande espanto nosso (!!!), que para tal não estão preparados.

Eis-nos, pois, para mim, no cerne das questões que se colocam actualmente à educação dos nossos filhos/alunos:

1. Democratizámos, sem qualquer espécie de dúvida, a educação das gerações mais novas,

– mas será que os ensinamos a viver efectivamente de uma forma democrática? Será que eles conhecem e respeitam as regras fundadoras da democracia, na sua forma de estar e encarar os outros?

2. Libertámos, sem qualquer espécie de dúvida, a educação das nossas crianças, dando-lhes total liberdade de pensamento e de expresessão e todo o espaço de participação nas suas (e nossas) vidas,

mas será que lhes ensinamos, do mesmo modo, os limites dessa própria liberdade? Será que os fazemos entender, claramente, a velha máxima de que a liberdade de cada um termina onde começa a dos outros, onde colide com a dos outros (onde nós, pais e professores, estamos incluídos)?

3. Garantimos-lhes, hoje, sobretudo no nosso tipo de sociedades, todos os seus direitos básicos,

mas será que lhes exigimos, com igual firmeza, o cumprimento dos seus deveres perante o próximo, o grupo e a sociedade? Será que entendem que o cumprimento desses mesmos deveres é a única garantia sobre os seus próprios direitos?

E a questão que aqui se coloca, o problema que está em causa, creio, não é só o dos valores nos quais formamos as novas gerações – os nossos alunos, os nossos filhos. A questão parece-me ir bastante mais longe.

O que podemos estar a pôr em causa é a sua própria estruturação como pessoas, a formação da sua personalidade individual. É o seu desenvolvimento psicológico que pode ficar comprometido.

João dos Santos, um dos nossos mais notáveis pedagogos, pedopsiquiatras e psicanalistas, alertava-nos, já nos anos 70 do século passado, para a importância da frustração e da auto-repressão no crescimento e formação das crianças e adolescentes.

Dizia ele, então, que “a criança precisa de ser frustrada para sentir que não pode possuir tudo e para poder pensar em vez de fazer; [precisa] de ser contrariada para sentir que há outros interesses além do seu (…)” [1]. Acrescentava, num outro momento que “a criança que, por hipótese, fosse criada num espaço sem limites, morreria não só como pessoa mas também como ser físico. (…) A criança necessita de se reprimir porque apreende espontaneamente que não pode fazer tudo, não pode dizer tudo, não pode exprimir todas as suas emoções. Não pode porque precisa de organizar a sua vida interior, o seu mundo secreto, a sua filosofia, a sua forma particular de combater os medos e de dominar a ansiedade ou medo indefinido e sem objecto” e terminava dizendo: “(…) Não é necessário reprimir as crianças, é só necessário que as ajudem a reprimir-se. Para que elas sejam inteligentes e criativas.” [2] … e equilibradas, acrescentaria eu.

Curiosamente, as próprias crianças têm clara consciência disso mesmo.
Numa das nossas sessões de Filosofia com Crianças, realizada no final do ano passado, com o 4º ano, discutiu-se, precisamente, a partir do Livro dos Grandes Opostos Filosóficos, de Oscar Brenifier, o binómio Liberdade/ Necessidade.

A dada altura da conversa, e muito ao jeito das crianças, discutia-se sobre “o que seria melhor”: se a Liberdade ou a Necessidade. Uma das crianças, a A. M., já tinha dito que para ela seria melhor a necessidade “porque temos que ter alguém que nos controle”; então, uma outra, o H, acrescentou:

– “Concordo com ambos, porque a liberdade é boa para fazermos o que nos apetece mas a necessidade também é boa porque, às vezes, precisamos de vigilância”.
– “Também concordo, disse M, porque precisamos muito de ajuda.”
– Mais radical, um dos G., diz mesmo:  “é melhor a necessidade porque temos que ter regras para conseguirmos viver todos juntos”.
– O outro G. volta a sublinhar a importância das duas: “Sem liberdade não nos podemos expressar, mas sem necessidade também não faríamos a maior parte das coisas boas e o mundo estaria ainda pior.”
– E A. conclui: “Ambas são importantes mas eu estou mais do lado da necessidade, porque se não cumprirmos as necessidades não temos liberdade.”

É apenas um resumo da extraordinária conversa que se manteve, ao longo de mais de duas sessões sobre este tema, com as crianças. É fantástica a sua lucidez!

Conhecendo eles, por experiência própria, o mundo liberal em que vivem, estas afirmações assumem, do meu ponto de vista,  quase os contornos de um apelo. Eles talvez não gostem, sobretudo à partida, de ser contrariados; talvez até protestem, mas, no seu íntimo, entendem-nos muito bem. Sabem muito bem aquilo de que precisam.

São, pois, estes, alguns dos nossos dilemas diários! E é, justamente, sobre estas questões, tão complexas quanto urgentes, que nos parece necessário reflectir e discutir em conjunto – Pais e Professores.

E foi para nos ajudar a reflectir, sobre este assunto que convidamos, hoje, uma pessoa muito, muito especial para o fazer – o Dr. Laborinho Lúcio.

Uma pessoa à altura da dificuldade e urgência do problema:
– pela sua extraordinária experiência pessoal e profissional;
– pelo seu invulgar conhecimento destas questões;
– pela amplitude invulgar, também, da sua cultura;
– pelas suas inegualáveis qualidades humanas e pessoais.

Ao Dr. Laborinho Lúcio, estamos, pois, muito, muito gratos por ter aceite encaixar na sua preenchidíssima agenda, com tanta disponibilidade o convite que lhe fizemos.

Manuel Rangel»

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